Gripe aviária H5N1: considerações sobre comércio e saúde

Ricardo Santin

Presidente da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA) e do International Poultry Council (IPC)

O vírus H5N1 da Influenza Aviária de Alta Patogenicidade (IAAP) é um patógeno importante, oferecendo riscos especialmente para a saúde animal com impactos significativos na segurança alimentar e no comércio internacional. Apesar de sua capacidade de persistência em produtos avícolas crus, este artigo analisa criticamente a possibilidade de transmissão do vírus à produção avícola industrial local por meio de carne importada inspecionada por um serviço veterinário reconhecido.

Com base em evidências de organizações intergovernamentais (WOAH/OIE, FAO, OMS, CDC, FDA), conclui-se que o risco é praticamente nulo. Defende-se, assim, a revisão de políticas comerciais baseadas em um princípio de precaução ultrapassado, propondo uma nova abordagem equilibrada que preserve tanto a saúde animal quanto o acesso a proteínas avícolas essenciais para populações vulneráveis.

1. Introdução

A influenza aviária causada pelo subtipo H5N1 tem sido objeto de crescente atenção desde sua emergência nos anos 2000, devido à sua letalidade em aves, capacidade zoonótica esporádica e impacto no comércio global de produtos avícolas. Embora a principal via de transmissão ocorra entre aves vivas por contato direto ou indireto com secreções respiratórias ou fezes, o temor de contaminação por produtos avícolas levou à imposição de barreiras comerciais muitas vezes desproporcionais, mesmo em cadeias de produção sob rigoroso controle sanitário.

2. Resistência do H5N1 ao congelamento

Estudos laboratoriais demonstram que o H5N1 pode manter-se viável em carne crua congelada por períodos superiores a 60 dias a –18 °C ou menos. Entretanto, a viabilidade viral não implica em risco efetivo de infecção, principalmente quando o produto:

  • passa por inspeção veterinária ante mortem e post mortem;
  • é submetido a processamento em ambientes industriais controlados;
  • é destinado ao consumo humano e, portanto, cozido a temperaturas ≥74 °C — condição suficiente para inativar o vírus antes de seu consumo ([CDC, 2024]; [FDA, 2024]; [FAO/WOAH, 2023]).

3. Análise de risco para a produção industrial local

Nos cenários em que os países importadores:

  • utilizam exclusivamente ração industrial termicamente tratada (pelletizada ou extrusada);
  • mantêm granjas isoladas, com biosseguridade garantida;
  • proíbem o uso de subprodutos crus na alimentação animal;
  • asseguram o descarte controlado de resíduos;
  • realizam inspeções sanitárias rotineiras;

… o risco de introdução do H5N1 aos animais vivos a partir de carne importada é, segundo critérios epidemiológicos, próximo de zero. A WOAH classifica como seguro o comércio de carne de aves abatidas sob inspeção, mesmo oriundas de países com focos de IAAP, desde que os produtos não sejam do foco por isso, a consideração sobre o zoneamento proposto por essa mesma organização deve ser urgentemente avaliada por aqueles países que ainda não o praticam em suas relações comerciais.

4. O princípio da precaução: quando se torna barreira comercial

A aplicação cega do princípio da precaução — especialmente em produtos que passaram por inspeção, sanitária e são destinados ao consumo humano — pode resultar em medidas comerciais desnecessárias, com impactos desproporcionais à ameaça real. O fechamento de mercados à importação de carne avícola sob tais circunstâncias:

  • não reduz significativamente o risco sanitário;
  • penaliza economicamente países exportadores;
  • gera inflação de alimentos nos países importadores;
  • afeta especialmente populações de baixa renda, limitando o acesso a proteínas de alto valor biológico, ricas em aminoácidos essenciais.

5. O paradoxo das aves migratórias

Enquanto a importação de carne inspecionada é banida por precauções rígidas, aves migratórias continuam circulando livremente entre fronteiras, muitas vezes sendo vetores assintomáticos do vírus de influenza aviária de alta patogenicidade. Ignorar essa fonte natural de disseminação e supervalorizar o risco de alimentos industrializados revela uma incoerência nas políticas sanitárias internacionais, que devem ser urgentemente revisadas à luz de evidências técnicas e econômicas.

6. Conclusão

Em condições controladas de produção, abate e processamento, para consumo humano, os produtos avícolas não representam risco sanitário para rebanhos industriais de outros países, desde que não sejam redirecionados para uso na alimentação animal ou oferecidos às aves vivas. O risco de transmissão do vírus da IAAP por essa via é praticamente desprezível, sendo tecnicamente nulo.

Neste sentido, o bloqueio comercial baseado em um princípio de precaução exagerado carece de fundamento técnico e prático. Além disso, prejudica a oferta de produtos avícolas globalmente, o equilíbrio de mercados e o bem-estar nutricional das populações mais vulneráveis. Propõe-se uma mudança de paradigma regulatório, baseada em risco real, ciência e proporcionalidade, reconhecendo a necessidade de conviver com um mundo onde zoonoses circulam naturalmente — inclusive por meios incontroláveis, como a migração de aves selvagens.

Afinal, que risco maior os produtos avícolas representam que já não esteja sendo apresentado pelas aves silvestres e ou migratórias?

 

Referências:

  • World Organisation for Animal Health (WOAH/OIE). Terrestrial Animal Health Code, 2023.
  • Food and Agriculture Organization (FAO), 2023. Avian Influenza Risk Management for Trade.
  • Centers for Disease Control and Prevention (CDC). Highly Pathogenic Avian Influenza (HPAI) and Food Safety, 2024.
  • World Health Organization (WHO). Avian Influenza: Assessing the pandemic risk, 2024.
  • U.S. Food and Drug Administration (FDA). Avian Influenza and Food Products, 2024.
  • Paho/OMS. Avian Influenza Technical Bulletin, 2023

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