Estudo estima déficit de 1,4 bilhão de toneladas de carbono no solo brasileiro

A conversão de áreas de vegetação nativa em lavouras e pastagens no Brasil gerou um déficit de 1,4 bilhão de toneladas de carbono no solo, considerando a camada de 0 a 30 centímetros. A perda equivale à emissão de 5,2 bilhões de toneladas de CO₂ equivalente.
A estimativa faz parte de um estudo inédito publicado na revista Nature Communications, que, pela primeira vez, calculou o estoque de carbono do solo brasileiro antes das intervenções humanas e mensurou o impacto da mudança de uso da terra em escala nacional.
Base ampla de dados e análise inédita
A pesquisa foi desenvolvida por cientistas da Esalq/USP, do CCarbon/USP, da Universidade Estadual de Ponta Grossa e da Embrapa. O trabalho analisou dados de mais de 370 estudos científicos, reunindo 4.290 amostras de solo coletadas em diferentes profundidades e sistemas produtivos em todo o país.
A comparação entre áreas de vegetação nativa e áreas agropecuárias permitiu identificar perdas de carbono em seis biomas, cinco tipos de solo e diferentes níveis de manejo agrícola, criando uma base robusta para orientar decisões técnicas e políticas.
Clima e uso da terra moldam perdas e oportunidades
Os resultados mostram que o clima influencia diretamente o estoque de carbono no solo. Biomas mais frios e úmidos, como Pampa e Mata Atlântica, apresentaram maiores estoques iniciais e, consequentemente, perdas mais expressivas após a conversão do uso da terra. Já biomas tropicais, como Cerrado, Caatinga, Pantanal e Amazônia, registraram estoques menores, mas ainda assim perdas relevantes.
Segundo os pesquisadores, compreender essas diferenças é fundamental para direcionar estratégias mais eficientes de manejo e recuperação do carbono, respeitando as características de cada região.
Agro como parte da solução climática
O estudo reforça que o sistema produtivo não é apenas parte do problema, mas também da solução. A adoção de práticas agrícolas mais sustentáveis reduz significativamente as perdas de carbono e amplia o potencial de recarbonização do solo.
A conversão da vegetação nativa em monoculturas resultou em perda média de 22% do carbono do solo. Em sistemas integrados, como a integração lavoura-pecuária-floresta, a perda caiu para 8,6%. O sistema de plantio direto também apresentou melhor desempenho, com redução de 11,4%, frente a 21,4% no cultivo convencional.
Esses dados indicam que a intensificação sustentável e a diversificação dos sistemas produtivos podem transformar áreas agrícolas em importantes reservatórios de carbono.
Potencial de recarbonização e mercado de carbono
A quantificação do déficit permitiu estimar o potencial de recarbonização do solo no Brasil. Cerca de 72% desse potencial está concentrado nos biomas Cerrado e Mata Atlântica, regiões onde práticas agrícolas adequadas podem gerar ganhos expressivos de carbono orgânico.
De acordo com o estudo, a recuperação de cerca de um terço desse potencial já seria suficiente para que o Brasil alcance suas metas de redução de emissões previstas no Acordo de Paris até 2035. Além de subsidiar políticas públicas, os dados oferecem uma base concreta para o avanço do mercado de carbono, abrindo espaço para investimentos privados em sistemas produtivos de baixo carbono.
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