Estudo estima déficit de 1,4 bilhão de toneladas de carbono no solo brasileiro

Publicado em 04.02.26

A conversão de áreas de vegetação nativa em lavouras e pastagens no Brasil gerou um déficit de 1,4 bilhão de toneladas de carbono no solo, considerando a camada de 0 a 30 centímetros. A perda equivale à emissão de 5,2 bilhões de toneladas de CO₂ equivalente.

A estimativa faz parte de um estudo inédito publicado na revista Nature Communications, que, pela primeira vez, calculou o estoque de carbono do solo brasileiro antes das intervenções humanas e mensurou o impacto da mudança de uso da terra em escala nacional.

Base ampla de dados e análise inédita

A pesquisa foi desenvolvida por cientistas da Esalq/USP, do CCarbon/USP, da Universidade Estadual de Ponta Grossa e da Embrapa. O trabalho analisou dados de mais de 370 estudos científicos, reunindo 4.290 amostras de solo coletadas em diferentes profundidades e sistemas produtivos em todo o país.

A comparação entre áreas de vegetação nativa e áreas agropecuárias permitiu identificar perdas de carbono em seis biomas, cinco tipos de solo e diferentes níveis de manejo agrícola, criando uma base robusta para orientar decisões técnicas e políticas.

Clima e uso da terra moldam perdas e oportunidades

Os resultados mostram que o clima influencia diretamente o estoque de carbono no solo. Biomas mais frios e úmidos, como Pampa e Mata Atlântica, apresentaram maiores estoques iniciais e, consequentemente, perdas mais expressivas após a conversão do uso da terra. Já biomas tropicais, como Cerrado, Caatinga, Pantanal e Amazônia, registraram estoques menores, mas ainda assim perdas relevantes.

Segundo os pesquisadores, compreender essas diferenças é fundamental para direcionar estratégias mais eficientes de manejo e recuperação do carbono, respeitando as características de cada região.

Agro como parte da solução climática

O estudo reforça que o sistema produtivo não é apenas parte do problema, mas também da solução. A adoção de práticas agrícolas mais sustentáveis reduz significativamente as perdas de carbono e amplia o potencial de recarbonização do solo.

A conversão da vegetação nativa em monoculturas resultou em perda média de 22% do carbono do solo. Em sistemas integrados, como a integração lavoura-pecuária-floresta, a perda caiu para 8,6%. O sistema de plantio direto também apresentou melhor desempenho, com redução de 11,4%, frente a 21,4% no cultivo convencional.

Esses dados indicam que a intensificação sustentável e a diversificação dos sistemas produtivos podem transformar áreas agrícolas em importantes reservatórios de carbono.

Potencial de recarbonização e mercado de carbono

A quantificação do déficit permitiu estimar o potencial de recarbonização do solo no Brasil. Cerca de 72% desse potencial está concentrado nos biomas Cerrado e Mata Atlântica, regiões onde práticas agrícolas adequadas podem gerar ganhos expressivos de carbono orgânico.

De acordo com o estudo, a recuperação de cerca de um terço desse potencial já seria suficiente para que o Brasil alcance suas metas de redução de emissões previstas no Acordo de Paris até 2035. Além de subsidiar políticas públicas, os dados oferecem uma base concreta para o avanço do mercado de carbono, abrindo espaço para investimentos privados em sistemas produtivos de baixo carbono.

Opinião

ver mais

Eventos

ver mais
09.03
Expodireto
11.03
THAIFEX – HOREC Asia – TAILÂNDIA
11.03
10ª DATAGRO Abertura de Safra Cana, Açúcar e Etanol
23.03
Alimentaria – ESPANHA