Estudo aponta que Cerrado pode armazenar mais carbono que Amazônia

Publicado em 16.03.26
Pesquisadora fazendo medições em área de Cerrado (Rafael Oliveira/Unicamp)

Um estudo recente indica que áreas úmidas do Cerrado podem desempenhar um papel relevante no armazenamento de carbono. A pesquisa, publicada na revista científica New Phytologist, aponta que veredas e campos úmidos do bioma podem concentrar grandes quantidades de carbono acumulado no solo ao longo de milhares de anos.

O trabalho foi liderado pela pesquisadora Larissa Verona e contou com a participação de cientistas da Universidade Estadual de Campinas, da Universidade Federal de Minas Gerais, do Cary Institute of Ecosystem Studies, do Instituto Max Planck e do Jardim Botânico do Rio de Janeiro.

A pesquisa representa uma das primeiras avaliações detalhadas dos estoques de carbono presentes nos solos profundos dessas áreas do Cerrado.

Carbono acumulado ao longo de milhares de anos

Para realizar o estudo, os pesquisadores coletaram amostras de solo de até quatro metros de profundidade. Pesquisas anteriores analisavam apenas camadas superficiais — entre 20 centímetros e um metro — o que poderia subestimar significativamente o volume total de carbono armazenado.

As análises indicaram que os solos dessas áreas úmidas podem concentrar cerca de 1.200 toneladas métricas de carbono por hectare.

Testes de datação por radiocarbono também mostraram que parte desse material orgânico é bastante antigo, com idade média estimada em cerca de 11 mil anos e registros que ultrapassam 20 mil anos.

Segundo os pesquisadores, esse processo de acúmulo ocorre porque as condições úmidas do solo reduzem a presença de oxigênio e desaceleram a decomposição da matéria orgânica.

Importância do Cerrado para o clima

O Cerrado ocupa cerca de 26% do território brasileiro e é considerado a savana mais biodiversa do planeta. Além disso, abriga nascentes que alimentam importantes bacias hidrográficas da América do Sul.

De acordo com os autores do estudo, a importância dessas áreas úmidas para o armazenamento de carbono ainda é pouco considerada em estimativas climáticas globais, principalmente pela falta de medições em solos profundos.

Riscos associados à degradação das áreas úmidas

Os pesquisadores alertam que mudanças no uso do solo podem alterar esse equilíbrio. A drenagem de áreas úmidas, a retirada de água para irrigação e a conversão de terras para atividades produtivas podem acelerar a decomposição da matéria orgânica armazenada no solo.

Quando isso ocorre, parte do carbono acumulado pode ser liberada na forma de dióxido de carbono e metano, gases associados ao aquecimento global.

Medições realizadas durante o estudo também indicaram que cerca de 70% das emissões de gases de efeito estufa nesses ambientes ocorrem durante a estação seca, quando o solo perde umidade e a decomposição se intensifica.

Preservação e manejo sustentável

Os autores defendem que o reconhecimento do papel climático dessas áreas pode contribuir para políticas de conservação e manejo sustentável do bioma.

Embora a legislação brasileira já preveja proteção para áreas úmidas, estudos indicam que uma parcela significativa desses ambientes já sofreu algum grau de degradação.

Para os pesquisadores, ampliar o conhecimento sobre os estoques de carbono do Cerrado é fundamental para orientar estratégias de conservação e planejamento territorial que conciliem produção, uso da terra e proteção ambiental.

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