Embrapa identifica áreas com maior risco de poluição da água pela agropecuária

Pesquisadores da Embrapa Meio Ambiente e da Embrapa Solos mapearam os municípios brasileiros que mais precisam de atenção no monitoramento da qualidade da água diante dos riscos de poluição difusa associada às atividades agropecuárias. O estudo também considera a vulnerabilidade dos recursos hídricos às mudanças climáticas e oferece subsídios para políticas públicas de prevenção e controle da contaminação.
Diferentemente da poluição causada por fontes identificáveis, como esgotos urbanos e efluentes industriais, a poluição difusa ocorre quando a chuva transporta fertilizantes, defensivos agrícolas, sedimentos e nutrientes das áreas rurais para rios, córregos e reservatórios. O trabalho destaca a presença de nitrogênio e fósforo, nutrientes utilizados na agricultura que, quando chegam em excesso aos corpos d’água, podem comprometer sua qualidade.
Centro-Oeste e Matopiba concentram áreas prioritárias
O mapeamento identificou áreas de maior prioridade em municípios de Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Goiás, além de partes do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, que integram o Matopiba, uma das principais fronteiras de expansão agrícola do País. Também foram identificados municípios do Paraná e de São Paulo que demandam atenção.
Segundo os pesquisadores, essas áreas combinam atividade agropecuária intensa, uso elevado de insumos agrícolas e condições ambientais que favorecem o transporte de nutrientes e sedimentos para os cursos d’água. Eventos climáticos extremos podem agravar esses riscos.
Para chegar aos resultados, a equipe reuniu bases de dados nacionais e utilizou Sistemas de Informação Geográfica (SIGs) para cruzar indicadores como uso de fertilizantes, tamanho dos rebanhos, área de cana-de-açúcar com fertirrigação, disponibilidade hídrica nas microbacias e suscetibilidade dos solos à erosão.
O estudo produziu dois mapas síntese: um voltado à prioridade de monitoramento da qualidade da água diante das fontes difusas de poluição e outro que incorpora também indicadores de vulnerabilidade às mudanças climáticas.
Perda de nutrientes também representa desperdício
Parte dos fertilizantes aplicados nas lavouras não é aproveitada pelas plantas e pode ser carregada pela chuva ou infiltrar-se no solo até atingir as águas subterrâneas. O estudo destaca que cerca de metade do nitrogênio utilizado pode se perder para o ambiente, provocando prejuízos econômicos e impactos ambientais.
A preocupação ganha relevância diante do crescimento do consumo de fertilizantes no Brasil. Segundo dados da Associação Nacional para Difusão de Adubos (ANDA) citados no estudo, as entregas passaram de 14,7 milhões de toneladas, em 1998, para 45,6 milhões de toneladas, em 2024. As projeções indicam que a demanda poderá chegar a cerca de 65 milhões de toneladas até 2050.
Entre as medidas recomendadas para reduzir os riscos estão a conservação do solo, o manejo adequado dos fertilizantes e a manutenção da vegetação nativa nas margens dos cursos d’água. Essas práticas ajudam a reduzir perdas de insumos e a proteger os recursos hídricos.
Dados podem orientar políticas públicas
Desenvolvido no âmbito do projeto IS-Agro, liderado pela Embrapa, o trabalho busca apoiar órgãos estaduais e municipais responsáveis pelas áreas de agricultura, meio ambiente e recursos hídricos na definição de prioridades para o monitoramento da água em áreas rurais.
A iniciativa também contribui para a produção de indicadores de sustentabilidade da agropecuária brasileira e para alimentar bases de dados internacionais organizadas pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).
Ao identificar as regiões que demandam maior atenção, o estudo oferece uma ferramenta para direcionar ações preventivas e fortalecer a gestão dos recursos hídricos, essenciais tanto para a produção agropecuária quanto para o abastecimento humano e a conservação dos ecossistemas.
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