Comunidades do Nordeste transformam saberes e sabores em rotas de turismo sustentável
No coração do Nordeste, comunidades rurais têm inovado ao transformar saberes ancestrais e sabores tradicionais em vivências turísticas sustentáveis e autênticas
Um dos exemplos mais marcantes acontece na Área de Proteção Ambiental de Guadalupe, em Pernambuco, onde 35 mulheres da Associação das Marisqueiras de Sirinhaém criaram a inovadora “Trilha das Marisqueiras”. A rota leva visitantes pelos manguezais, apresenta técnicas sustentáveis de coleta de mariscos e termina com degustações de pratos típicos, como caldinhos e doces regionais. Todo o percurso foi estruturado com conteúdo educativo, estações de visitação e práticas de economia circular — incluindo o aproveitamento de resíduos para artesanato local.
Essa iniciativa, além de valorizar a cultura local, rendeu ao município de Sirinhaém o 3º lugar no Green Destinations Stories Awards 2025, na categoria “Comunidades Prósperas”, premiado na Feira Internacional de Berlim. Para Viviane Maria Wanderly, presidente da associação, o impacto vai além do reconhecimento:
“Hoje, nós somos reconhecidas e valorizadas dentro de casa, pelos nossos esposos, na cidade e até fora do Brasil…” A estimativa é que cerca de 900 pessoas sejam beneficiadas direta e indiretamente pela atividade turística dessas mulheres
A força dessa transformação está em sua base participativa: com escuta ativa, rodas de conversa, oficinas, intercâmbios e planejamento coletivo, o projeto estruturou um modelo de turismo de base comunitária enraizado nas narrativas locais. Com isso, foi criada a Rede Territórios Saberes e Sabores, formada por iniciativas de seis municípios, possibilitando autonomia e continuidade das ações de forma colaborativa, mesmo após o encerramento do projeto. Como destaca a turismóloga Lydayanne Lilás Nobre, esse modelo prova que produtos turísticos autênticos e comunitários podem gerar impactos econômicos e sociais duradouros.
Além de Pernambuco, as ações estenderam-se por Alagoas e Sergipe por meio do projeto Paisagens Alimentares, coordenado pela Embrapa Alimentos e Territórios e financiado pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), com execução entre 2022 e 2025. Em Maceió, representantes dessas comunidades participaram de um workshop final de governança turística sustentável, exibindo seus produtos locais e discutindo a importância de valorizar os territórios com foco ambiental e social. Salete Barbosa, da Coopcam (Alagoas), lembrou que desde 2018 vêm sendo aprimoradas produções como derivado de jabuticaba, integrando turismo rural, sementes crioulas e circulação de conhecimento.
Esse movimento reforça que turismo de base comunitária, culinária regional e protagonismo feminino podem se unir para valorização social, cultural e econômica. Ao colocar o alimento, a paisagem e a comunidade no centro da experiência turística, essas iniciativas mostram um norte promissor para políticas públicas que busquem fortalecer o campo por meio da cultura, inclusão e sustentabilidade — e, sobretudo, apontam caminhos inspiradores para todo o Brasil.
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