Produtividade avança, mas crédito mais caro pressiona o agro
A produção agropecuária brasileira cresceu quase 150% entre 2000 e 2025, ou 3,7% ao ano, contra 2,3% ao ano do PIB do País.
O novo Texto Ocasional para Discussão (TOD) “Contexto do setor agropecuário e seu financiamento e endividamento: 2013 a 2025”, divulgado pelo Cepea (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada), da Esalq/USP, mostra que esse desempenho veio da produtividade, e não dos preços: a produtividade total dos fatores cresceu 92% de 2000 a 2024 e explica 82% da expansão do volume, enquanto a relação de preços entre insumos e produtos piorou 35% no período.
Segundo o estudo, o quadro mudou com a pandemia. Os preços reais da agropecuária subiram 72% de 2019 a 2021, e a renda do setor, 84%. Em seguida, os preços recuaram 24% até 2025 e a renda caiu 14% de 2021 a 2024, enquanto os insumos, que subiram 60% de 2019 a 2022, seguiram caros. E o crédito encareceu: a taxa média do crédito rural a pessoas físicas passou de 6,2% ao ano em 2020 para 11,2% em 2023 e 12,2% em 2025, acompanhando a Selic
O estudo destaca quatro pontos:
- A dívida voltou à faixa histórica – O passivo do setor no sistema financeiro, que havia caído para 61% da renda em 2020, chegou a 106% em 2024 e a 94% em 2025, dentro da faixa de 86% a 109% observada entre 2013 e 2019.
- O crédito cresceu e mudou de fonte – O crédito rural concedido passou de R$ 251 bilhões em 2019 para R$ 446 bilhões em 2023 (+78%, a preços de 2025). As Letras de Crédito do Agronegócio (LCA) somaram R$ 125 bilhões em 2025, quase sete vezes o valor de 2016 e 35% do crédito rural; entre as fontes privadas, a parcela contratada a taxas livres passou de 7% em 2013 para 52% em 2025.
- O investimento depende cada vez menos do crédito rural – O investimento agropecuário passou de R$ 152 bilhões em 2019 para R$ 260 bilhões em 2025 (estimativa do Cepea) e o crédito rural financiou apenas 36% dele em 2025. Os outros 64% vieram de recursos próprios, de Cédulas de Produto Rural, de fornecedores e de leasing; a parte que é dívida não aparece nas estatísticas do Banco Central.
- A inadimplência depende de quem se observa – Entre as empresas do setor agropecuário, ela chegou a 3,5% em agosto de 2026, abaixo da média do sistema financeiro (5,2%). Entre as pessoas físicas (cerca de 80% da carteira), a inadimplência do crédito rural passou de 0,8% em dezembro de 2022 para 9,7% em agosto de 2026, recorde da série do Banco Central.
Para os autores, decisões tomadas antes da pandemia perderam rentabilidade no cenário seguinte, e o crédito, mais caro, não veio em socorro: “o cenário de problemas de liquidez e de aumento da inadimplência na agropecuária estava desenhado”. Este estudo complementa o Texto Ocasional para Discussão n.4, “Endividamento rural no Brasil, 2013–2026”, que documenta esse cenário em 2025 e 2026, com carteira problemática de R$ 205 bilhões (23,8% do crédito rural).
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