Ciência e tradição se unem para proteger sementes do Semiárido

Publicado em 13.10.26
Conservação dinâmica: as sementes permanecem nas mãos das famílias, circulam entre comunidades, voltam à terra e são selecionadas a cada safra

Agricultores familiares, povos indígenas e comunidades quilombolas estão no centro de uma iniciativa que aproxima pesquisa científica e conhecimento tradicional para conservar a diversidade agrícola do Semiárido. O Projeto Agrobiodiversidade do Semiárido (AgrobioSA), coordenado pela Embrapa Alimentos e Territórios, atua em sete territórios de Alagoas, Bahia, Paraíba e Piauí, com investimento superior a R$ 3 milhões até 2027.

Em 2026, quatro ensaios participativos avaliam pelo menos 20 variedades crioulas de milho nos quatro estados. A iniciativa integra o Programa InovaSocial, em parceria com a Articulação Semiárido Brasileiro (ASA) e com apoio do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), e tem expectativa de beneficiar cerca de 2 mil famílias.

Redes comunitárias preservam a diversidade

As sementes crioulas são variedades locais conservadas, selecionadas e multiplicadas pelas próprias famílias agricultoras ao longo das gerações. Adaptadas às condições de cada território, elas representam um patrimônio genético e cultural ligado à produção de alimentos, à autonomia produtiva e à memória das comunidades.

Para fortalecer essa conservação, o projeto prevê ações de monitoramento e apoio a 122 Casas e Bancos Comunitários de Sementes, espaços mantidos pelas comunidades para armazenar, trocar e multiplicar variedades locais.

Em Alagoas, a Rede Sementes da Resistência reúne mais de 60 bancos comunitários. No município de Piranhas, a agricultora Maria Francisca relata que o banco de sua comunidade reúne mais de 100 variedades, incluindo sementes da Caatinga, de milho e de feijão. Além de conservar os materiais, as famílias utilizam sementes e mudas em iniciativas de reflorestamento e preservação ambiental.

Pesquisa ajuda a proteger o milho crioulo

Um dos desafios identificados pelo projeto é a contaminação das sementes crioulas por transgênicos. Na fase anterior da iniciativa, 34% das amostras analisadas apresentaram proteínas geneticamente modificadas. Até o momento, cerca de 100 materiais já foram testados quanto à presença desses componentes.

A Rede de Proteção do Milho Crioulo, em construção, busca desenvolver protocolos de monitoramento, reintroduzir nos territórios variedades conservadas em bancos de germoplasma da Embrapa e estruturar unidades locais de conservação.

O projeto também implantou viveiros de mudas em Escolas Família Agrícola na Bahia e no Piauí. Em Delmiro Gouveia (AL), um campo de multiplicação instalado em agosto de 2026 está sendo monitorado para contribuir com a renovação dos estoques comunitários.

Conhecimento tradicional ganha apoio científico

Os ensaios participativos permitem avaliar o comportamento das variedades nas condições reais de cultivo, considerando produtividade, adaptação local e características valorizadas pelas famílias. O acompanhamento científico também ajuda a qualificar conhecimentos construídos pela observação e pela prática ao longo de gerações.

Em outubro, agricultores e pesquisadores avaliaram cinco variedades de milho crioulo em Fátima, na Bahia. Além das características agronômicas, o grupo realizou uma avaliação sensorial de cuscuz preparado com os grãos colhidos na véspera, considerando cor, textura, maciez, aroma e sabor. A atividade incorporou os critérios de preferência das próprias famílias à análise das variedades.

Outra iniciativa de valorização desse patrimônio é o catálogo Sementes da Resistência, resultado de uma parceria entre o Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA) e a Embrapa Alimentos e Territórios. A publicação reúne 47 variedades cultivadas em 21 comunidades de cinco municípios de Alagoas, com informações para identificar, localizar, acessar e multiplicar os materiais.

Ao integrar ciência, redes comunitárias e saberes tradicionais, o AgrobioSA busca manter as sementes nas mãos das famílias agricultoras, fortalecendo a conservação da agrobiodiversidade e a autonomia das comunidades do Semiárido.

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