Pesquisadores identificam substância inédita para bioinsumos
Resumo da matéria
- Fungo endofítico, microrganismo que vive dentro de tecidos vegetais, isolado de uma planta tropical, produziu substâncias bioativas com potencial herbicida e antifúngico
- Entre esses metabólitos, o batizado como composto “2” foi descrito pela primeira vez e mostrou desempenho superior ao de alguns pesticidas sintéticos
- Ensaios comparativos revelaram que o composto mostra ação mais potente que a de herbicidas como glifosato e clomazona
- A pesquisa reforça a biodiversidade brasileira como fonte de moléculas inovadoras para bioinsumos destinados ao uso na agricultura
- Os próximos passos incluem estudos de segurança, mecanismos de ação e formulação de produtos comerciais
Descoberta em fungo endofítico amplia possibilidades para defensivos biológicos
Pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) e da Embrapa Meio Ambiente identificaram substâncias com ação herbicida e antifúngica a partir do isolamento de um fungo endofítico encontrado em uma planta medicinal do gênero Piper.
Entre os compostos está uma molécula inédita na literatura científica, batizada provisoriamente como composto “2”, que apresentou desempenho igual ou superior ao de pesticidas sintéticos já utilizados no mercado.
A descoberta representa o primeiro registro da atividade biológica dessa substância e abre novas oportunidades para o desenvolvimento de bioinsumos, ampliando o portfólio de moléculas naturais com potencial para substituir ou complementar defensivos químicos.

O papel dos endófitos na agricultura
Fungos endofíticos vivem no interior das plantas sem causar danos aparentes. Muitas vezes, estabelecem relações benéficas, oferecendo proteção natural contra pragas e doenças por meio da produção de metabólitos bioativos.
Segundo o professor Luiz Henrique Rosa (UFMG), esses microrganismos funcionam como “reservatórios invisíveis” de compostos químicos com alto potencial de uso agrícola. Ele destaca que o avanço das pesquisas acompanha o aumento da demanda global por soluções biológicas mais sustentáveis e eficientes, especialmente diante da resistência crescente de pragas a defensivos sintéticos.
Fusarium sp. em destaque
Entre os microrganismos analisados, chamou atenção um fungo identificado como Fusarium sp. UFMGCB 15449. O gênero, bastante comum em ambientes agrícolas, é conhecido tanto pela capacidade de causar doenças como por produzir substâncias de interesse biotecnológico.
Para a pesquisadora Débora Barreto, da UFMG, o estudo aprofunda a compreensão sobre as aplicações potenciais desses endófitos. Pesquisas anteriores já haviam registrado atividades antimicrobianas em espécies relacionadas, incluindo aplicações em culturas como o café.
Isolamento e identificação
O fungo foi coletado em 2017 no Parque Estadual da Floresta do Rio Doce (MG) e preservado na coleção microbiológica da UFMG. A identificação utilizou ferramentas de biologia molecular, incluindo sequenciamento de DNA e comparação com dados do GenBank.
Os cientistas confirmaram o gênero Fusarium, embora não tenham chegado à espécie exata, algo comum devido à complexidade taxonômica do grupo. Ainda assim, as análises morfológicas e genéticas foram suficientes para avançar nos testes que revelaram o potencial bioativo dos metabólitos produzidos.
Fronteira científica
Os resultados iniciais abrem caminho para pesquisas mais aplicadas, incluindo a avaliação do desempenho dos compostos em condições de campo e sua integração em formulações comerciais. Também há interesse em explorar o fenômeno de hormese observado nos testes, em que doses baixas estimularam o crescimento vegetal, indicando potencial para usos diferenciados.
“Estamos diante de uma fronteira científica em que microrganismos invisíveis podem se transformar em aliados estratégicos da agricultura”, concluem os autores.
Inovação
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