Rastreabilidade ganha importância com expansão da pecuária brasileira

A pecuária brasileira vive um momento de expansão, com recordes nas exportações de carne bovina e aumento no número de animais abatidos. Ao mesmo tempo, cresce a exigência dos mercados por informações sobre origem, sanidade e conformidade socioambiental. Nesse cenário, a rastreabilidade deixa de ser apenas uma ferramenta de controle e ganha importância para a competitividade da cadeia.
Entre janeiro e junho, o Brasil exportou 1,705 milhão de toneladas de carne bovina, alta de 15,5% em relação ao mesmo período de 2025. A receita chegou a US$ 9,85 bilhões, crescimento de 36,2%, segundo dados da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec), com base em informações da Secretaria de Comércio Exterior (Secex/MDIC).
No mercado interno, o primeiro trimestre também registrou recorde no abate de bovinos para o período, com 10,29 milhões de animais sob inspeção sanitária, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Mercados exigem informações verificáveis
O movimento de expansão ocorre em paralelo ao aumento das exigências internacionais. A partir de setembro, entram em aplicação requisitos europeus relacionados à comprovação do uso de antimicrobianos. Em dezembro, começa a valer a European Union Deforestation Regulation (EUDR), que estabelece requisitos de rastreabilidade e comprovação de origem para produtos associados ao desmatamento.
Embora tratem de temas diferentes, as duas regulamentações apontam para uma mesma direção: não basta informar como e onde um produto foi produzido; é preciso ter condições de comprovar essas informações.
“O contínuo desenvolvimento do setor amplia também a responsabilidade sobre a qualidade das informações que sustentam essa produção. A rastreabilidade deixa de ser apenas uma ferramenta de controle e passa a ser um ativo estratégico para a cadeia”, afirma Ana Doralina, presidente da Mesa Brasileira da Pecuária Sustentável
Segundo ela, a dificuldade de comprovar origem, trajetória e conformidade pode resultar em restrições de mercado, risco reputacional para a carne brasileira e perda de oportunidades de diferenciação e valorização.
Identificação individual avança no Brasil
Nesse contexto, 2026 é uma etapa importante para a implementação do Plano Nacional de Identificação Individual de Bovinos e Búfalos (PNIB). O cronograma prevê a adequação dos sistemas estaduais e a integração das bases de dados neste ano, preparando o setor para o avanço gradual da identificação individual a partir de 2027. A obrigatoriedade antes da primeira movimentação está prevista para 2032.
A identificação individual é uma das bases da rastreabilidade, mas, para que o sistema funcione de forma efetiva, será necessário conectar as informações geradas nos diferentes pontos da cadeia. Integração entre bases, interoperabilidade dos sistemas, qualidade dos dados e definição das responsabilidades de cada elo estão entre os desafios.
Rastreabilidade também precisa gerar valor
A Mesa Brasileira da Pecuária Sustentável acompanha esse processo por meio do GT de Rastreabilidade e das discussões relacionadas à implementação do PNIB, contribuindo para o debate sobre integração de bases e interoperabilidade junto ao Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA).
Outro ponto considerado importante é a participação dos produtores. Para Ana Doralina, a implementação da rastreabilidade precisa ser acompanhada de orientação, capacitação e condições para que os pecuaristas compreendam os benefícios da geração e do compartilhamento de informações.
Mais do que atender às novas exigências regulatórias, a rastreabilidade pode se tornar um instrumento para fortalecer a transparência, facilitar o acesso a mercados e proteger o valor da produção brasileira. Para uma cadeia que amplia sua presença no mercado internacional, transformar dados sobre a trajetória dos animais em informações confiáveis passa a ser parte importante da própria competitividade.
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