Plantas do Cerrado poderão recuperar áreas degradadas pela mineração

Publicado em 06.10.25

Resumo da matéria

  • Pesquisa da Embrapa testa espécies nativas para recuperar áreas degradadas por barragens de rejeito em Paracatu (MG)
  • O solo nas barragens apresenta alta acidez, baixa fertilidade, pouca matéria orgânica e alta compactação
  • Exigências legais tornam o plantio ainda mais complexo, pois impedem o uso de espécies com raízes profundas e parte aérea muito desenvolvida
  • Projeto busca criar protocolo sustentável e replicável para áreas mineradas do País
  • Espécies promissoras já mostram adaptação, mas faltam sementes no mercado voltadas ao bioma
O estudo está sendo conduzido na mina Morro do Ouro, com foco na revegetação dos taludes — estruturas inclinadas que contêm os rejeitos da mineração

Diante dos desafios ambientais da mineração de ouro no Cerrado mineiro, uma pesquisa da Embrapa Cerrados (DF), em parceria com a Kinross Gold Corporation, está testando o uso de espécies nativas e exóticas adaptadas ao bioma para recuperar áreas degradadas por barragens de rejeito em Paracatu (MG). O objetivo é desenvolver um protocolo sustentável de revegetação que possa ser aplicado em outras regiões do País.

O estudo, conduzido na mina Morro do Ouro, concentra-se na revegetação dos taludes, estruturas inclinadas que contêm os rejeitos da mineração. Segundo a pesquisadora Leide Andrade, os solos analisados apresentaram baixa fertilidade, acidez elevada e presença de metais tóxicos, criando um ambiente hostil à vegetação. “A escolha das espécies certas é decisiva para o sucesso da revegetação”, afirma.

Cooperação entre ciência e mineração

Firmado em 2023, o acordo técnico entre a Embrapa e a Kinross envolve a criação de um protocolo definitivo de revegetação para taludes e barragens. O gerente de Desenvolvimento Sustentável da Kinross, Gabriel Mendonça, ressalta que o trabalho conjunto tem sido essencial:

“A cooperação tem garantido o bom andamento das atividades de recuperação ambiental e poderá servir como referência para outras empresas do setor”

Desafios do bioma e restrições técnicas

Revegetar essas áreas vai além do plantio. Como explica a pesquisadora Fabiana Aquino, as espécies utilizadas precisam atender a exigências legais e de engenharia, como não desenvolver raízes profundas (que podem desestabilizar o talude) nem parte aérea muito alta (para permitir o monitoramento).

“Na agricultura, buscamos produzir mais; aqui, precisamos produzir o mínimo possível, apenas o suficiente para proteger o solo”, compara Aquino

Testes em campo com espécies promissoras

Os experimentos instalados em Paracatu testam diferentes combinações de espécies, adubação e manejo. Segundo o pesquisador Cícero Pereira, a equipe começou com a caracterização detalhada do solo e identificou que muitas espécies tradicionalmente usadas não se adaptam bem ao ambiente local.

Para os novos testes, foram mantidas espécies como estilosantes, braquiária humidicola e grama pensacola, e incluídas leguminosas promissoras, como a Mimosa somnians, nativa do Cerrado, e a Alysicarpus vaginalis, originária da Ásia, mas já cultivada em regiões tropicais. “Elas mostram bom desempenho e não comprometem o monitoramento do solo”, explica Andrade.

Milheto: vilão ou aliado da revegetação?

Um dos achados do estudo é que espécies comuns na agricultura, como o milheto, podem se tornar prejudiciais em ambientes minerados. A planta cresceu excessivamente nos taludes, impedindo o desenvolvimento de outras espécies e dificultando a observação do solo. “Mesmo uma cobertura de solo consagrada na agricultura pode ter efeito contrário em outro contexto”, destaca a pesquisadora Marina Vilela.

Os dados levaram à revisão do protocolo experimental, com ajustes nas quantidades de sementes e maior controle das variáveis ambientais, explica o estatístico Juaci Malaquias.

Ciência do Cerrado: soluções que nascem no campo

Outro desafio é a escassez de sementes de espécies adaptadas ao Cerrado. Para Andrade, isso reforça a importância de investir em pesquisa local e inovação aplicada ao bioma.

“Não adianta importar soluções de outros biomas. A tecnologia precisa nascer aqui, com nossos solos, nosso clima e nossas espécies”, defende

Apesar das dificuldades, os primeiros resultados apontam espécies capazes de se estabelecer em condições adversas, abrindo caminho para modelos de recuperação ambiental que conciliem ciência, biodiversidade e sustentabilidade.

“A mineração transforma o território, mas a forma como restauramos essas áreas também pode ser transformadora”, conclui Andrade

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