Estudo avalia impactos de El Niño e La Niña na produtividade da soja no Cerrado

Publicado em 29.09.26

A ocorrência de El Niño e La Niña pode afetar de maneiras distintas a produtividade da soja nas diferentes regiões do Cerrado. Um estudo que analisou cinco décadas de dados climáticos, de 1975 a 2024, identificou que os impactos variam de acordo com a época de semeadura, o sistema de manejo do solo e as características de cada polo produtor.

A pesquisa avaliou o desempenho da cultivar BRS 8383IPRO em quatro importantes regiões produtoras: Barreiras (BA), Planaltina (DF), Rio Verde (GO) e Cuiabá (MT). O trabalho foi conduzido por pesquisadores da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), Embrapa Meio Ambiente e Embrapa Cerrados.

O estudo analisou a influência das diferentes fases do fenômeno El Niño–Oscilação Sul (ENOS) sobre a produção simulada da soja. O ENOS corresponde a oscilações na temperatura das águas do Oceano Pacífico capazes de alterar os regimes de chuva e temperatura em diversas regiões. Suas principais fases são o El Niño, associado ao aquecimento das águas, e a La Niña, relacionada ao resfriamento, além dos períodos considerados neutros.

Época de semeadura pode reduzir impactos

Para avaliar os diferentes cenários, os pesquisadores utilizaram dados de produtividade gerados pelo modelo de simulação agrícola STICS e classificaram os anos da série histórica de acordo com o Índice Oceânico Niño registrado entre março e maio. O período foi escolhido por oferecer antecedência para o planejamento da safra, já que o plantio da soja no Cerrado ocorre entre setembro e dezembro.

As simulações consideraram diferentes datas de semeadura e dois sistemas de manejo do solo: Plantio Direto e Plantio Convencional. De forma geral, os anos de La Niña favoreceram o rendimento das lavouras analisadas, enquanto períodos de El Niño estiveram associados a perdas de produtividade, especialmente nas semeaduras antecipadas. Os resultados indicam que a escolha do momento de implantação da cultura pode ser determinante para reduzir riscos em safras sob influência do fenômeno.

Segundo os pesquisadores, considerar a fase do ENOS ajuda a compreender parte das variações de produtividade observadas entre diferentes safras e regiões e pode complementar outras informações utilizadas pelos produtores no planejamento agrícola.

Plantio Direto apresenta melhor desempenho

Outro resultado do estudo foi o desempenho superior do sistema de Plantio Direto em relação ao Plantio Convencional em todos os cenários avaliados. Com o não revolvimento do solo e a manutenção da palhada sobre a superfície, o sistema contribui para conservar a umidade, reduzir a temperatura do solo e diminuir a erosão. Essas características tornam-se especialmente importantes em períodos marcados por irregularidade das chuvas.

A pesquisa também encontrou forte relação entre produtividade e transpiração das plantas. O resultado indica que a distribuição das precipitações ao longo do ciclo da cultura pode ser tão importante quanto o volume total de chuva acumulado durante a safra.

Quando a deficiência hídrica ocorre em fases críticas do desenvolvimento da soja, o enchimento dos grãos pode ser comprometido, com reflexos diretos sobre a produtividade.

Informações podem complementar o ZARC

Atualmente, uma das principais referências para o planejamento do calendário agrícola brasileiro é o Zoneamento Agrícola de Risco Climático (ZARC), elaborado a partir de séries históricas de dados meteorológicos.

Segundo os autores do estudo, informações sobre as fases do ENOS poderão, futuramente, complementar essas recomendações e contribuir para tornar o planejamento mais dinâmico, permitindo ajustes na época de semeadura e no manejo conforme as condições previstas para cada safra.

Independentemente de uma futura incorporação dessas informações ao ZARC, os pesquisadores recomendam que a semeadura da soja no Cerrado seja realizada, sempre que possível, após o estabelecimento regular da estação chuvosa. A orientação é evitar o chamado “plantio no pó”, realizado sob condições de deficiência hídrica que podem comprometer a germinação e o desenvolvimento inicial das plantas.

Apesar da influência identificada no estudo, os pesquisadores ressaltam que El Niño e La Niña não determinam isoladamente o desempenho das lavouras. A produtividade final resulta da interação entre fatores como distribuição e volume das chuvas, temperatura, características de cada região, manejo do solo e outros fenômenos meteorológicos de grande escala.

Os resultados reforçam, portanto, o potencial das informações climáticas como ferramenta adicional para o planejamento agrícola, especialmente quando combinadas às características locais e às práticas de manejo adotadas em cada propriedade.

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